domingo, 24 de julho de 2011

As concepções das crianças a respeito do sistema de escrita





Os indicadores mais claros das explorações que as crianças realizam para compreender a natureza da escrita são suas produções espontâneas. Quando uma criança escreve tal como acredita que poderia ou deveria escrever certo conjunto de palavras, está nos oferecendo um importantíssimo documento que necessita ser interpretado para poder ser avaliado. Essas escritas infantis tem sido consideradas de forma displicente. Aprender a interpretá-las é um longo aprendizado que requer uma atitude teórica definida. Se pensarmos que as crianças aprendem somente quando submetidas a um ensino sistemático e que até que receba tal tipo de ensino sua ignorância está garantida é um engano, pois mesmo sem autorizações as crianças formulam hipóteses sobre o sistema de escrita, e respeitar o saber das crianças e não compará-lo ao saber da escola é essencial. Algumas crianças são capazes de realizar a leitura de determinada palavra sem conhecer o valor sonoro convencional. Inversamente, outras crianças realizam avanços substanciais no que diz respeito à compreensão do sistema, sem ter recebido informação sobre a denominação de letras particulares.
As primeiras escritas infantis aparecem, do ponto de vista gráfico, como linhas onduladas ou quebradas, contínuas ou fragmentadas, ou então com uma série de elementos repetidos. A aparência gráfica não é garantia de escrita, a menos que se conheçam as condições de produção.
O modo tradicional de se considerar a escrita infantil consiste em se prestar atenção apenas nos processos gráficos dessas produções, ignorando os aspectos construtivos. Os aspectos gráficos têm a ver com a qualidade do traço, a distribuição espacial das formas, a orientação predominante, a orientação dos caracteres individuais. Os aspectos construtivos têm a ver com que se quis representar e os meios utilizados para criar diferenciações entre as representações.
Do ponto de vista construtivo, a escrita infantil segue uma linha de evolução bastante regular, através de diversos meios culturais, situações educativas e diversas linguas. Aí podem ser distinguidos três grandes períodos no interior dos quais cabem muitas subdivisões:
  • distinção entre o modo de representação icônico e não- icônico;
  • a construção de formas de diferenciação ( controle progressivo das variações sobre os eixos qualitativo e quantitativo );
  • a fonetização da escrita ;
Ao desenhar se está no domínio do icônico, as formas dos grafismos importam porque reproduzem a forma dos objetos. Ao escrever se está fora do icônico, pois as formas dos grafismos não reproduzem a forma dos objetos, nem sua ordenação espacial reproduz o contorno dos mesmo. Por isso, tanto a arbitrariedade das formas utilizadas como a ordenação linear das mesmas são as primeiras características  manifestas da escrita pré-escolar. Embora de maneira precoce as formas convencionais de escrita possam aparecer, isso se deve ao fato das crianças receberem um sistema de escrita pronto para ser utilizado pela sociedade e não necessitam inventá-lo.
Por outro lado é dedicado pelas crianças um grande esforço intelectual na construção de formas de diferenciação entre as escritas e isso caracteriza o período seguinte.  Esses critérios de diferenciação são, inicialmente, intrafigurais e consistem no estabelecimento das propriedades que um texto escrito deve possuir para poder ser interpretável, esses critérios se expressam, sobre o eixo quantitativo, como a quantidade mínima de letras - geralmente três - que uma escrita deve ter para que " diga algo " e, sobre o eixo qualitativo, como a variação interna necessária para que uma série de grafias possa ser interpretada.
O passo seguinte é marcado pela busca incessante de diferenciações entre as escritas produzidas precisamente para " dizer coisas diferentes " e essa busca torna-se mais elaborada nos modos de diferenciação, que resultam ser interfigurais, que são buscas de variações as vezes sobre o eixo quantitativo ( variam a quantidade de letras de uma escrita para outra, para obter escritas diferentes ), e, as vezes sobre o eixo qualitativo ( poderão variar o repertório de letras que se utiliza de uma escrita para outra, a posição dessas letras mas modificar a quantidade ). Coordenar esses dois modos de diferenciação para as crianças é tão difícil como em qualquer outro domínio da atividade cognitiva.
Nestes dois primeiros períodos , o escrito ainda não está regulado por diferenças ou semelhanças entre os significantes sonoros. É exatamente essa atenção às propriedades sonoras do significante que marca o início no terceiro grande período. Então a criança começa por descobrir que as partes da escrita podem corresponder a outras tantas partes da palavra escrita. Percebe- se que a quantidade de letras com que se vai escrever uma palavra pode ter correspondência com a quantidade de partes que se reconhece na emissão oral. Essas partes de palavra inicialmente são as sílabas, e iniciasse assim o período silábico, que evolui até que a criança experimente uma exigência mais rigorosa ( uma sílaba por letra, sem omitir sílabas e sem repetir letras ) essa hipótese silábica é muito importante pois permite que a criança utilize um critério geral para regular as variações de quantidade de letras e centrar-se nas variações sonoras entre as palavras. No entanto , a hipótese silábica também crias contradições entre o controle silábico e a quantidade mínima de letras que uma escrita deve possuir para ser interpretável.
Os conflitos antes mencionados, vão desestabilizando progressivamente a hipótese silábica, até que a criança tem coragem suficiente para se comprometer em um novo processo de construção. O período silábico alfabético marca a transição entre os esquemas prévios em vias de serem abandonados e os esquemas futuros em vias de serem construídos.
Quando a criança descobre que as sílabas não podem ser consideradas como uma unidade, mas que ela é, por sua vez, reanalisável , ingressa no último passo da compreensão do sistema socialmente estabelecido.

Fonte: FERREIRO. Emilia. Reflexões sobre alfabetização.24.ed.atualizada - São Paulo : Cortez,2001